quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O QUE É A IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA ?


A Igreja celebra solenemente, no dia 8 e dezembro, o fato de a Virgem Maria ter sido concebida sem pecado original

A definição do dogma da Imaculada Conceição constituiu um longo caminho de discernimento, no qual o “sensus fidelium” teve um papel muito importante. É uma festa de esperança, de alegria pelo imenso poder da redenção trazida por Cristo, que pôde inclusive preservar sua Mãe do domínio do pecado.

A Imaculada Conceição de Maria constitui, para os cristãos, uma boa notícia de esperança na libertação do pecado, trazida pela redenção de Cristo na cruz. Ao longo dos séculos, apesar das dificuldades na definição do dogma, o povo cristão acreditou e defendeu intensamente esta verdade.

Em 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX (Giovanni Maria Mastai Ferretti, 1792-1878) proclamou, com a bula “Ineffabilis Deus”, o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria, isto é, que Nossa Senhora foi preservada por Deus, desde o instante da sua concepção, pelos méritos da redenção de Cristo, do pecado original que todos os homens têm pela transgressão de Adão, para preparar a mais perfeita Mãe para o seu Filho.

“O mistério da Imaculada Conceição é fonte de luz interior, de esperança e de consolo”, afirmou Bento XVI durante a oração do Ângelus no dia da Imaculada, em 2010.

Sobre a pureza de Maria, Bento XVI disse, em 8 de dezembro de 2009, que “Maria Imaculada ajuda-nos a redescobrir e defender a profundidade das pessoas, porque nela existe a transparência perfeita da alma no corpo. É a pureza em pessoa, no sentido que nela espírito, alma e corpo são plenamente coerentes entre si e com a vontade de Deus”.

O Papa incentiva a dirigir-se à Imaculada com a alegria de ser seus filhos: “Cada vez que experimentamos a nossa fragilidade e a sugestão do mal, podemos dirigir-nos a Ela, e o nosso coração recebe luz e conforto”.

No caso da Imaculada Conceição, o sentir do povo fiel esteve à frente da formulação do dogma, já desde os primeiros séculos. Na Idade Média, a controvérsia chegou a extremos épicos. Por exemplo, a defesa da festa levou os monges ingleses, no século XI, a resistirem aos normandos invasores, enquanto, nas universidades do continente, professores e alunos se juramentavam com pactos de sangue em defesa da Imaculada. São numerosas as lendas medievais de aparições e visões angélicas, neste sentido.

Na Espanha, sabe-se que, já desde a época dos visigodos e sobretudo durante a Reconquista, os reis se postulavam como defensores da “puríssima concepção de Maria”. O primeiro voto à Imaculada Conceição foi feito em 1466, em Villalpando (Zamora). Os territórios da Coroa espanhola a festejavam como padroeira desde 1644 e os sacerdotes espanhóis têm, desde 1864, o privilégio pontifício de celebrar esse dia com casula azul, como reconhecimento do papel da Espanha na defesa do dogma.

Existe um grande patrimônio artístico e cultura sobre a Imaculada, especialmente nos países hispanos, no sul da Itália e nos Estados Unidos, que mostram quão profundamente repercute na vida cristã a preservação de Maria do pecado original desde a sua concepção.

O dogma da Imaculada, definido em 1854, foi recebido com grandes festejos e, poucas décadas depois, adquiriu o caráter de solenidade com vigília, como as grandes festas do calendário cristão. A Imaculada foi declarada padroeira dos Estados Unidos em 1847, pelo episcopado católico desse país. Celebra-se também, com grande solenidade e devoção, com grandes festas e procissões, na Argentina, Panamá, Colômbia, Peru, Equador, Chile, Guatemala, México, Nicarágua e Brasil.

Muitos santos falaram com ternura da Imaculada. Um deles foi, por exemplo, São Maximiliano Kolbe, quem afirmou que “o Espírito Santo mora nela, vive nela e isso desde o primeiro instante da sua existência, sempre e para a eternidade”. É tradicional que, no dia 8 de dezembro, o papa reinante se dirija à Praça da Espanha, de Roma, para homenagear a imagem da Virgem Imaculada.

Ao ter sido preservada imune de toda mancha de pecado original, a Puríssima Conceição permanece diante de Deus, e também diante da humanidade inteira, como o sinal imutável e inviolável da escolha por parte de Deus. Esta escolha é mais forte que toda a força do mal e do pecado que marcou a história do homem, uma história em que Maria aparece então como “sinal de esperança segura”.

Por outro lado, em Maria resplandece a santidade da Igreja que Deus quer para todos os seus filhos. Nela, a Igreja já chegou à perfeição e, por isso, recorre a Ela como “modelo perene” (em palavras da carta encíclica “Redemptoris Mater”), em quem já se realiza a esperança escatológica da vida futura.

Além disso, Maria permaneceu fiel à sua natureza imaculada e se tornou, para todo ser humano, um modelo de qualquer virtude representada em grau sumo, destacou o ministro geral dos Frades Menores, José Rodríguez Carballo, acrescentando que “Maria é uma mulher da mesma massa que nós, que realiza absolutamente o ideal de pureza, beleza e santidade”.

Com a definição papal do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria, culminou um longo caminho de discernimento teológico e doutrinal da Igreja, que durou vários séculos.

A decisão de Pio IX foi o cume de uma longa tradição de devoção por Maria Imaculada. Desde os primeiros séculos do cristianismo, sobretudo no Oriente, a Igreja celebrou a pureza de Maria. Os Padres da Igreja a definiam como a “Panaghia”, isto é, a toda santa, santificada pelo Espírito Santo, “lírio puríssimo”, “imaculada”.

No Ocidente, a tradição eclesial manteve sempre a doutrina da Imaculada Conceição, mas a evolução do dogma se vinculou ao discernimento teológico sobre a questão do pecado original. As dificuldades se apresentavam em dois sentidos: em primeiro lugar, se Maria era uma exceção, não teria precisado ser redimida, e com isso a Redenção não poderia ser considerada universal, contradizendo São Paulo. O segundo problema se dava pelo momento em que Maria havia ficado isenta do pecado, se antes ou imediatamente depois da sua concepção, pois não existia consenso sobre a maneira como se transmitia o pecado original.

A verdadeira controvérsia começou na Europa no século XII, com o surgimento das universidades e da escolástica. O teólogo Anselmo de Cantuária elaborou então o conceito da pré-redenção, sustentando que a Redenção havia sido aplicada a Maria antes do seu nascimento. O franciscano João Duns (1265-1308), chamado Scoto por ser originário da Escócia, foi o autor da máxima “Potuit, decuit, fecit” (Deus podia fazê-lo, convinha que o fizesse, portanto o fez): portanto, a Imaculada Conceição não era uma exceção à Redenção de Cristo, e sim sua mais perfeita e eficaz ação salvífica.

A controvérsia, contudo, prosseguiu e, em 1439, a disputa oi levada ao Concílio de Basileia. Após dois anos de discussões, os bispos declararam a Imaculada Conceição como uma doutrina piedosa em conformidade com o culto católico, a fé católica, o direito racional e a Sagrada Escritura, estabelecendo que, a partir desse momento, não se permitiria pregar ou declarar algo oposto. No entanto, ao não se tratar de um concílio ecumênico, não se pôde pronunciar com a máxima autoridade.

Em 1476, com o Papa Sisto IV, a festa da Concepção de Maria foi introduzida no calendário romano.

Desde o século XVI, as grandes universidades se tornaram baluartes de defesa do dogma. Quem não jurasse fazer o que estivesse ao seu alcance para defender a Imaculada Conceição, não podia ser admitido como membro em muitas universidades, como as de Bolonha, Nápoles, Paris, Colônia, Viena, Coimbra, Lovaina, Salamanca, Sevilha, Valência e, antes da Reforma, Oxford e Cambridge. Também houve ordens religiosas dedicadas à sua defesa, como os Frades Menores, que, em 1621, escolheram-na como padroeira, comprometendo-se a difundir a doutrina em público em em privado.

Em 8 de dezembro de 1661, o Papa Alexandre VII promulgou a constituição “Sollicitudo omnium Ecclesiarum”, declarando que a imunidade de Maria com relação ao pecado original desde o primeiro momento da criação da sua alma e da sua infusão no corpo eram objeto de fé. Isso também foi recolhido nos catecismos de Pedro Canísio (século XVI), Roberto Belarmino (século XVII) e Jacques-Bénigne Bossuet (século XVIII).

Em 1830, Catarina Labouré (1806-1876) recebeu uma aparição de Nossa Senhora, quem lhe confiou a tarefa de difundir no mundo inteiro a “medalha milagrosa”, com a imagem de Maria e com a inspiração “Concebida sem pecado”. A devoção que suscitou foi tão grande entre os fiéis, que muitos bispos pediram ao Papa Gregório XVI a definição do dogma da Imaculada Conceição.

As petições continuaram com seu sucessor, Pio IX, que instituiu uma congregação especial de cardeais e membros do clero secular e regular para examinar cuidadosamente tudo que fosse relativo à Imaculada. O Pontífice enviou a todos os bispos católicos a encíclica “Ubi primum”, de 1849, para que comunicassem que devoção animava seus diocesanos com relação à Imaculada Conceição de Maria, e sobretudo o que os próprios bispos opinavam a respeito disso.

Na “Ineffabilis Deus” (art. 17), Pio IX confessou o “consolo” que sentiu ao receber as respostas dos bispos, as quais, “com uma incrível complacência, alegria e fervor, (…) não somente reafirmaram a piedade” com relação à Imaculada Conceição, mas “também todos a uma só voz” (546 dos 603 bispos que haviam respondido) “ardentemente” pediram a definição do dogma com uma “suprema e autoritativa sentença”. Ao mesmo tempo, também os membros da congregação especial haviam “pedido com insistência” tal definição ao Papa, assim como um consistório.

Por isso, afirmou e definiu “que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha da culpa original no primeiro instante da sua conceição por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do gênero humano, está revelada por Deus e deve ser, portanto, firme e constantemente acreditada por todos os fiéis” (art. 18).

Quatro anos depois da proclamação do dogma, em 1858, a Virgem apareceu em Lourdes (França) à jovem Bernadette Soubirous, dizendo “Eu sou a Imaculada Conceição” – significativa confirmação da proclamação de Pio IX.

O Catecismo da Igreja Católica recorda, no número 488, que “Deus enviou o seu Filho. Mas, para lhe formar um corpo, quis a livre cooperação duma criatura”; e que, para ser a Mãe do Salvador, Maria “foi adornada por Deus com dons dignos de uma tão grande missão" (n. 490). “Desde o primeiro instante da sua conceição, ela foi totalmente preservada imune da mancha do pecado original, e permaneceu pura de todo o pecado pessoal ao longo da vida” (n. 508).

A Oração do Papa Francisco à
Imaculada Conceição

Elevemos nossas preces à Imaculada, Santa Mãe de Deus e nossa Mãe!
Virgem Santa e Imaculada,
que sois a honra do nosso povo
e a guardiã solícita da nossa cidade,
a Vós nos dirigimos com amorosa confidência.

Toda sois Formosa, ó Maria!
Em Vós não há pecado.

Suscitai em todos nós um renovado desejo de santidade:
na nossa palavra, refulja o esplendor da verdade,
nas nossas obras, ressoe o cântico da caridade,

no nosso corpo e no nosso coração, habitem pureza e castidade,
na nossa vida, se torne presente toda a beleza do Evangelho.

Toda sois Formosa, ó Maria!
em Vós Se fez carne a Palavra de Deus.

Ajudai-nos a permanecer numa escuta atenta da voz do Senhor:
o grito dos pobres nunca nos deixe indiferentes,
o sofrimento dos doentes e de quem passa necessidade não nos encontre distraídos,
a solidão dos idosos e a fragilidade das crianças nos comovam,
cada vida humana sempre seja, por todos nós, amada e venerada.

Toda sois Formosa, ó Maria!
Em Vós, está a alegria plena da vida beatífica com Deus.

Fazei que não percamos o significado do nosso caminho terreno:
a luz terna da fé ilumine os nossos dias,
a força consoladora da esperança oriente os nossos passos,
o calor contagiante do amor anime o nosso coração,
os olhos de todos nós se mantenham bem fixos em Deus, onde está a verdadeira alegria.

Toda sois Formosa, ó Maria!
Ouvi a nossa oração, atendei a nossa súplica:
esteja em nós a beleza do amor misericordioso de Deus em Jesus,
seja esta beleza divina a salvar-nos a nós, à nossa cidade, ao mundo inteiro.

Amém.

Papa Francisco
*Ato de Veneração à Imaculada Conceição na Praça de Espanha (8 de dezembro de 2013)


Fonte: Aleteia

EVANGELHO DO DIA 08 DEZEMBRO 2016


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ARQUIDIOCESE DO RIO DE JANEIRO TEM DOIS NOVOS BISPOS AUXILIARES NOMEADOS PELO PAPA FRANCISCO


Nossa querida Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro ganha, com a graça de Deus, no dia de hoje, 7 de dezembro de 2016, Dia de Santo Ambrósio e véspera da Solenidade da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, dois novos bispos auxiliares: Monsenhor Joel Portella Amado e Monsenhor Paulo Alves Romão. Para mim é um grande presente de aniversário ao completar neste dia 42 anos de ordenação presbiteral. Agradeço ao Papa Francisco ter-nos concedido esses auxiliares de que tanto necessitamos. É uma boa notícia em meio a tantas situações de conflito que ora vivemos. São novos sucessores dos Apóstolos para servirem a Igreja.


1.  Significado da Arquidiocese e a missão de seu Pastor Próprio: o Bispo Diocesano.

Desejo, dentro deste importante acontecimento, refletir com nossos prezados leitores sobre o significado pastoral, teológico e canônico deste momento da vida de nossa Igreja particular. Embora todos saibam que o Rio é uma Arquidiocese e, por isso, tem à frente, como primeiro servidor, um Arcebispo, usarei, no texto, os termos Bispo diocesano, Bispo auxiliar e Diocese, uma vez que essas palavras são comuns à praxe pastoral ao passo que os apelativos Arcebispo e Arquidiocese se referem mais a uma questão canônico-administrativa.

Convém iniciar lembrando que “a Diocese é uma porção do Povo de Deus confiada ao pastoreio do Bispo com a cooperação do presbitério, de modo tal que, unindo-se ela ao seu pastor e, pelo Evangelho e pela Eucaristia, reunida por ele no Espírito Santo, constitua uma Igreja particular, na qual está verdadeiramente presente e operante a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica” (Código de Direito Canônico, cânon 369).


2.  Bispos auxiliares e a necessidade pastoral.

Pois bem, essa Diocese tem à frente um Bispo, chamado de diocesano, pois é o primeiro responsável no serviço do Povo de Deus a ele confiado. Em circunstâncias de grandes necessidades pastorais, o Bispo diocesano pode pedir à Santa Sé um ou mais bispos auxiliares. Estes são chamados de titulares, pois recebem o título de uma antiga diocese que havia outrora, mas hoje não mais existe. Eles ajudam ao Bispo diocesano nos trabalhos pastorais sem direito certo à sucessão. Quem pode suceder um Bispo diocesano, em funções especiais (limite de idade, doença etc.) é o Bispo coadjutor, não, porém, o auxiliar (cf. cânones 376 e 403, § 1-3). Os auxiliares ou coadjutores agem dentro da Diocese de acordo com as prescrições dos cânones 403-411 e de mais algum documento dado em sua nomeação.

Ao falar isso, lembramo-nos de uma antiquíssima tradição da Igreja que diz estar ela congregada ou reunida em torno de seu Pastor, segundo Santo Inácio de Antioquia, no início do século II, ao escrever: “Sem o Bispo não é permitido nem batizar nem celebrar o ágape (Eucaristia). Tudo, porém, que ele aprovar seja agradável a Deus, para que tudo quanto se fizer, seja seguro e legítimo” (Carta aos Esmirnenses, 8).


3.  Da missão episcopal.

O sacerdote nomeado para o ministério episcopal passa a ser, automaticamente, chamado de Monsenhor até que receba a sagração – aí tem o termo Dom antes do nome – em uma bela cerimônia na qual devem estar presentes um Bispo como sagrante principal e mais dois co-sagrantes ao menos, para dar autêntico significado à colegialidade apostólica desejada por Cristo ao constituir os Apóstolos e seus sucessores. Via de regra, um número maior de Bispos tomam parte dessas cerimônias, demonstrando, assim, apoio e fraternidade colegial com o recém-sagrado (cf. cânon 1014).

É importante ainda, penso, lembrar aqui um ensinamento de Dom Dadeus Grings, nosso amado irmão no episcopado de quem fui Coordenador de Pastoral e foi um dos meus co-sagrantes, a respeito da função do Bispo em sua Diocese. Ele “possui ‘todo poder ordinário próprio e imediato’, que se requer para o exercício de sua tarefa pastoral, exceto naquelas causas que o Sumo Pontífice houve por bem reservar a si” (Curso de Direito Canônico. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2004, p. 25).

Como se vê, na Igreja vigora o princípio da subsidiariedade, ou seja, o Bispo tem completa autonomia em sua Diocese naquilo que diz respeito à sua missão de Pastor daquele Povo a ele confiado.

E qual é essa função do Bispo em linhas gerais? – É a de ser, antes de tudo e acima de tudo Pastor, aquele que cuida de suas ovelhas, especialmente as mais feridas e necessitadas em suas periferias existenciais. Ele não é o “homem de gabinete”, mas, sim, aquele que está no meio do seu povo dando exemplo do serviço, pois se é tido como o primeiro ou o maior, então deverá ser aquele que a todos serve (cf. Lc 22,27).


4.  O que espera o Papa Francisco de um bispo hoje?

Aliás, o Papa Francisco voltou a lembrar, recentemente, no Jubileu dos Núncios Apostólicos que eles (os Núncios) devem indicar Bispos com o seguinte perfil para os dias de hoje: “testemunhas do Ressuscitado e não portadores de currículos; Bispos orantes, familiarizados com as coisas do ‘alto’ e não esmagados pelo peso do ‘baixo’; Bispos capazes de entrar ‘com paciência’ na presença de Deus, de modo a possuir a liberdade de não atraiçoar o Querigma que lhes foi confiado; Bispos pastores e não príncipes e funcionários.” (Discurso do Papa Francisco aos participantes do Encontro dos Núncios Apostólicos, de 17/09/16, www.vatican.va).

Ao Bispo não cabe apenas a preocupação “com os de dentro”, mas também com as ovelhas feridas e dispersas, especialmente para com aqueles que abandonaram os sacramentos, a participação na comunidade, a oração, a fé... Os fiéis de outros ritos ou os irmãos de outras confissões religiosas, promovendo o sadio ecumenismo, o interesse por buscar os não batizados, bem como ser um verdadeiro pai ao seu presbitério: é preciso ouvi-los e ampará-los, especialmente nos momentos mais difíceis de suas vidas (dificuldades pessoais, pastorais, crises diversas etc.), além de trabalhar na pesca das vocações sacerdotais, consagradas e leigas de que a Igreja tanto necessita.


5.  Profunda unidade e íntima sintonia dos Bispos Auxiliares com o seu Bispo Diocesano.

Tem o Bispo diocesano e os auxiliares com ele – em profunda sintonia – a missão tríplice de: 1) evangelizar e defender a ortodoxia da fé; 2) santificar, trabalhando com redobrado ardor a fim de que os fiéis cresçam na graça divina, além do mais, de dar exemplo de uma vida santa, caridosa, humilde, simples, rezando pelo seu povo e 3) como governante da Diocese cabe-lhe o poder executivo, legislativo e judiciário a fim de que seja promovido o bem comum e os trabalhos pastorais necessários entre os seus, de acordo com a realidade na qual ele está inserido.

Tudo isso há de ser ponderado com a mente aberta e o coração elevado a Deus, cheio de amor para com o próximo. E aqui, como sempre faço, volto-me às sábias palavras do Papa Francisco: “O povo percorre com dificuldade a planície do dia-a-dia, e precisa de ser guiado por quem é capaz de ver as coisas do alto. Por isso, nunca devemos perder de vista as necessidades das Igrejas particulares às quais devemos providenciar. Não existe um Pastor standard para todas as Igrejas. Cristo conhece a singularidade do Pastor de que cada Igreja necessita para que responda às suas necessidades e a ajude a realizar as suas potencialidades. O nosso desafio é entrar na perspectiva de Cristo, tendo em consideração esta singularidade das Igrejas particulares” (Discurso do Papa Francisco na Reunião da Congregação para os Bispos, 27/02/14, www.vatican.va).


6.     Os bispos devem ser testemunhas do Ressuscitado.

Os Bispos devemos ser testemunhas do Ressuscitado. “Quem é uma testemunha do Ressuscitado? É quem seguiu Jesus desde o início e é constituído com os Apóstolos testemunha da sua Ressurreição. Também para nós é este o critério unificador: o Bispo é aquele que sabe tornar atual tudo o que aconteceu a Jesus e, sobretudo, sabe, juntamente com a Igreja, fazer-se testemunha da sua Ressurreição. O Bispo é antes de tudo um mártir do Ressuscitado. Não uma testemunha isolada, mas juntamente com a Igreja. A sua vida e o seu ministério devem tornar credível a Ressurreição. Unindo-se a Cristo na cruz da verdadeira entrega de si, faz jorrar para a própria Igreja a vida que não morre. A coragem de morrer, a generosidade de oferecer a própria vida e de se consumir pelo rebanho estão inscritos no ‘DNA’ do episcopado. A renúncia e o sacrifício são conaturais com a missão episcopal. E desejo frisar isto: a renúncia e o sacrifício são congênitos à missão episcopal. O episcopado não é para si mas para a Igreja, para a grei, sobretudo para aqueles que segundo o mundo são descartáveis” (idem).


7.  Os bispos devem pregar o Evangelho e viver em íntima oração com Deus em favor da santificação do Povo de Deus.

Deve o Bispo ser o homem do anúncio, da oração e, como já mencionava, o Pastor, aquele que não teme se sujar pelas ovelhas próximas ou perdidas. Aquele desejoso de gastar-se pelo Reino de Deus que é a Igreja no meio do seu Povo, cheio de tantos desafios e dificuldades.


8. O bispo deve estar no meio dos mais pobres e dos descartados.

Reina ainda a banalização da vida nos contextos que o Papa João Paulo II chamou de “cultura da morte” e Francisco tem alcunhado de “cultura do descartável”, e aqui pensamos em todos os excluídos da vida sem culpa própria, como aqueles que no ventre materno se acham ameaçados de morte com o aval do Estado ou os doentes em fase terminal abandonados por falta de cuidados, às vezes em situações piores do que a de países em guerra declarada. Esta é um pouco da realidade que espera nossos novos auxiliares, mas, certamente, a graça de Deus nunca lhes faltará.


9.  Três segredos de um bispo virtuoso: ser caridoso, ser vínculo de comunhão e ter paciência.

Creio caber ainda uma palavra sobre a ideia que todos temos quando nos tornamos servidores no sentido de desejar mudar ou reformar algumas coisas vistas à nossa frente, ainda que nem sempre aquilo seja o mais ideal. Como, então fazer? – Saber manter os três princípios que a sábia tradição da Igreja oferece para essas ocasiões: 1) dar primazia à caridade e aos sérios objetivos pastorais sobre as “belas ideias”. 2) permanecer na comunhão com a Igreja: tudo aquilo que vem de Deus nunca separa, sempre une. Por isso, a “bela ideia” de mudança há de estar em sintonia com a caminhada da Diocese e da Igreja em todo o mundo e 3) saber com paciência aguardar os momentos oportunos. Sim, aquele que busca renovar as coisas com Deus sabe esperar a lentidão das criaturas e o amadurecimento de cada um a fim de não se lançar, de modo afoito, em uma iniciativa cuja prosperidade pode ficar ameaçada pela pressa.


10.  Da trajetória pessoal dos novos auxiliares:

10.1 – Monsenhor Joel Portella Amado.

Monsenhor Joel Portella Amado pertence ao clero diocesano do Rio de Janeiro. Nascido em 2 de outubro de 1954, na cidade do Rio de Janeiro, teve a formação para o sacerdócio no Seminário Arquidiocesano São José. Foi ordenado presbítero em 12 de outubro de 1982 pela imposição das mãos de meu amado predecessor, Cardeal Eugênio de Araújo Sales. Desde a sua ordenação, foi pároco nas Paróquias Jesus Ressuscitado (1982-1991) e Nossa Senhora da Vitória (1991-2014). Até o dia de hoje é o pároco da Paróquia São Sebastião, Catedral Metropolitana. Tem exercido, ainda, outras funções em nível arquidiocesano, tais como: Vigário Forâneo, Membro do Conselho Presbiteral e do Colégio de Consultores, Coordenador de Pastoral e Vigário Geral. Foi membro do INP – Instituto Nacional de Pastoral (2008-2012) e membro de reflexão teológico-pastoral do CELAM (2014-2016). Membro do colendo Cabido Metropolitano e nomeado Capelão de Sua Santidade, pelo Papa Bento XVI. É, ainda, membro da Academia Luso-Brasileira de Letras. Possui graduação em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1977), graduação em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1982), mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1987) e doutorado em Teologia pela mesma Universidade (1999). Tem larga e festejada experiência na área de Teologia, com ênfase em Antropologia Teológica e Teologia Pastoral, atuando principalmente nos seguintes temas: evangelização, inculturação, pastoral urbana, teologia e urbanização. Atualmente é professor no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Está sendo nomeado hoje Bispo Titular de “Carmeiano” e Auxiliar de nossa Arquidiocese.

10.2 - Padre Paulo Alves Romão.

Paulo Alves Romão, nascido a 6 de abril de 1964, em Barra do Jacaré, Diocese de Jacarezinho, Estado do Paraná é também do clero arquidiocesano. Obteve o grau de bacharel em Filosofia na Faculdade Eclesiástica João Paulo II (1991-1992) e de bacharel em Teologia pelo Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro (1993-1997). Obteve o grau de mestre (1997-1998) e de doutor em Teologia sistemática pastoral (2007-2012) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com a tese A estrutura sacramental na história salvífica: estudo comparado Edward Schillebeekx e Luigi Giussani. Foi ordenado sacerdote em 28 de junho de 1997 pela Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, na qual exerceu as seguintes funções: Diretor espiritual do Seminário Arquidiocesano São José (1997-1999), Professor do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1998-2016); responsável diocesano do Movimento Comunhão e Libertação (2001-2016); diretor do Departamento de Ensino Religioso da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (2002-2016), Professor do Instituto Superior de Ciências Religiosas (2004-2005), Responsável pela Pastoral da Educação desta Arquidiocese (2009-2016), Pároco da Paróquia Bom Pastor (2011-2016) e Diretor espiritual do Seminário Propedêutico Rainha dos Apóstolos (2016). Hoje foi nomeado Bispo Titular de Calama, Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.


11. UT OMNES UNUM SINT.

É uma grande alegria receber dois bispos auxiliares que são do amado clero do Rio de Janeiro. Isso demonstra a vitalidade e o valor dos padres formados em nossa Arquidiocese. Meu afetuoso cumprimento ao clero arquidiocesano na certeza de que os senhores irão acolher com carinho os novos colaboradores que o Papa Francisco envia para comigo e sob a minha direção de Bispo Diocesano possamos fazer acontecer a ação pastoral em nossa querida Arquidiocese buscando sempre o ideal que deve nortear a todos: bispo diocesano e seus bispos auxiliares, clero e povo santo de Deus: “Ut omnes unum sint”, ou seja “de modo que todos sejam um em Cristo!”.

Por fim, gostaria de pedir ao nosso querido Povo de Deus que acolha com alegria, entusiasmo e gratidão ao Senhor os nossos novos Bispos auxiliares. Eles vêm nos ajudar a caminhar melhor. Eles são sucessores dos Apóstolos, parte do colégio episcopal assim como todos os demais Bispos – Eméritos, Arcebispos e Senhores Cardeais – e nessa condição cabe-lhes as mesmas faculdades que Jesus deu aos doze (cf. Mt 18,18). Faz-se, portanto, a distinção na forma de servir, mas não no ministério ou no modo de ser Bispo. Este é e sempre será um sucessor do Colégio Apostólico até o fim dos tempos. A ordenação de ambos está agendada para o dia 28 de Janeiro de 2016, sábado, às 9 horas da manhã em nossa Catedral Metropolitana de São Sebastião.

Temos consciência das realidades que vivemos no mundo, no país, em nosso estado e cidade. Sabemos bem o terreno onde pisamos e como as pessoas tem necessidade de encontrar luzes em suas vidas. Ao termos mais dois auxiliares temos certeza de que irão colaborar para estar junto aos que sofrem e necessitam assim como nos ajudarão a semear esperança e paz.

Monsenhor Joel Portella Amado e Monsenhor Paulo Alves Romão, sejam bem-vindos! Nós os acolhemos como bons operários da vinha do Senhor nesta Igreja particular do Rio de Janeiro para servir destemidamente, particularmente os mais pobres e necessitados, para vivenciar a caridade pastoral, construindo vínculo de comunhão com o Bispo Diocesano, dispensando os mistérios sagrados, com a preciosa ajuda do amado clero, manifestando a todos os homens e as mulheres a virtude paciência na construção da misericórdia e da paz!


Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


Fonte: ARQRIO


EVANGELHO DO DIA 07 DEZEMBRO 2016


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

OS FRUTOS DO ANO DA MISERICÓRDIA



Com o fim do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, iniciado em 8 de dezembro de 2015 e encerrado anteontem (20/11/16) com uma celebração no Vaticano, o papa Francisco publicou nesse mesmo dia a Carta Apostólica "Misericordia et misera", em que faz um balanço do significado do jubileu na vida da Igreja e estende algumas das disposições feitas durante o Ano Santo, além de anunciar alguns outros frutos desse tempo de tanta Graça para a Igreja de Cristo.

A Carta Apostólica "Misericórdia et misera" deixa transparecer toda a Misericórdia que o Senhor tem pelo seu povo, além do coração piedoso e caridoso do nosso Santo Padre, o Papa Francisco, que faz de tudo para que o povo de Deus e seus pastores vivam essa misericórdia como uma opção de vida.

O Santo Padre frisa o tempo todo que o coração misericordioso do Senhor é maior do que qualquer pecado que seu povo possa cometer e que está sempre indo de encontro àquele que se sente atraído pelo amor de Deus e a Ele quer retornar. E, que nada e ninguém nesse mundo pode atrapalhar esse reencontro.

Diz o Santo Padre: "Nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do seu perdão. É por este motivo que nenhum de nós pode pôr condições à misericórdia; esta permanece sempre um ato de gratuidade do Pai celeste, um amor incondicional e não merecido. Por isso, não podemos correr o risco de nos opor à plena liberdade do amor com que Deus entra na vida de cada pessoa."

O Papa exorta a todo povo de Deus, inclusive os sacerdotes, a que sejam instrumentos eficazes da misericórdia divina na vida das pessoas mais necessitadas, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos, ricos ou pobres, enfim, seja quem for que esteja triste, desesperado; sem esperança, encarcerado, vivendo nas ruas, com fome, sede; abandonado em asilos, abrigos; precisando de carinho, de uma palavra amiga; precisando se sentir digno, acolhido; enfim, precisando de perdão e misericórdia.

Dentro dessa tônica, o Santo Padre, colocou como uma das eficazes ferramentas para a reconciliação do pecador com Deus, a confissão. Sacramento de cura espiritual que tanto nos conforta e anima a uma mudança de vida radical.

Dentro desse espírito misericordioso e o pensamento de que ninguém pode se colocar entre um pecador arrependido e Deus, o Santo Padre concedeu que todos os sacerdotes possam absolver o pecado de aborto, o que antes do Ano Santo estava reservado apenas aos bispos e a padres especialmente designados por eles.

Disse o Santo Padre: "Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário. Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente; mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. Portanto, cada sacerdote faça-se guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconciliação."

O Papa nos dá pistas concretas de como viver a misericórdia: "A cultura da misericórdia forma-se na oração assídua, na abertura dócil à ação do Espírito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres. É um convite premente para não se equivocar onde é determinante comprometer-se."

Por fim, o Santo Padre deixa, como "mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres." Ou seja, o penúltimo domingo de cada Ano Litúrgico, que sempre cai em novembro.

Eis a seguir, na íntegra, a Carta Apostólica "Misericórdia et misera", a qual vale a pena ler, meditar e por em prática:


CARTA APOSTÓLICA MISERICORDIA ET MISERA DO SANTO PADRE FRANCISCO

MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador: «Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia».[1] Quanta piedade e justiça divina nesta narração! O seu ensinamento, ao mesmo tempo que ilumina a conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, indica o caminho que somos chamados a percorrer no futuro.

1.         Esta página do Evangelho pode, com justa razão, ser considerada como ícone de tudo o que celebramos no Ano Santo, um tempo rico em misericórdia, a qual pede para continuar a ser celebrada e vivida nas nossas comunidades. Com efeito, a misericórdia não se pode reduzir a um parêntese na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho. Tudo se revela na misericórdia; tudo se compendia no amor misericordioso do Pai.

Encontraram-se uma mulher e Jesus: ela, adúltera e – segundo a Lei – julgada passível de lapidação; Ele que, com a sua pregação e o dom total de Si mesmo que O levará até à cruz, reconduziu a lei mosaica ao seu intento originário genuíno. No centro, não temos a lei e a justiça legal, mas o amor de Deus, que sabe ler no coração de cada pessoa incluindo o seu desejo mais oculto e que deve ter a primazia sobre tudo. Entretanto, nesta narração evangélica, não se encontram o pecado e o juízo em abstrato, mas uma pecadora e o Salvador. Jesus fixou nos olhos aquela mulher e leu no seu coração: lá encontrou o desejo de ser compreendida, perdoada e libertada. A miséria do pecado foi revestida pela misericórdia do amor. Da parte de Jesus, nenhum juízo que não estivesse repassado de piedade e compaixão pela condição da pecadora. A quem pretendia julgá-la e condená-la à morte, Jesus responde com um longo silêncio, cujo intuito é deixar emergir a voz de Deus tanto na consciência da mulher como nas dos seus acusadores. Estes deixam cair as pedras das mãos e vão-se embora um a um (cf. Jo 8, 9). E, depois daquele silêncio, Jesus diz: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? (...) Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar» (8, 10.11).

Desta forma, ajuda-a a olhar para o futuro com esperança, pronta a recomeçar a sua vida; a partir de agora, se quiser, poderá «proceder no amor» (Ef 5, 2). Depois que se revestiu da misericórdia, embora permaneça a condição de fraqueza por causa do pecado, tal condição é dominada pelo amor que consente de olhar mais além e viver de maneira diferente.

2.         Aliás Jesus ensinara-o claramente quando, em casa dum fariseu que O convidara para almoçar, se aproximou d’Ele uma mulher conhecida por todos como pecadora (cf. Lc 7, 36-50). Esta ungira com perfume os pés de Jesus, banhara-os com as suas lágrimas e enxugara-os com os seus cabelos (cf. 7, 37-38). À reação escandalizada do fariseu, Jesus retorquiu: «São perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa, pouco ama» (7, 47).

O perdão é o sinal mais visível do amor do Pai, que Jesus quis revelar em toda a sua vida. Não há página do Evangelho que possa ser subtraída a este imperativo do amor que chega até ao perdão. Até nos últimos momentos da sua existência terrena, ao ser pregado na cruz, Jesus tem palavras de perdão: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34).

Nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do seu perdão. É por este motivo que nenhum de nós pode pôr condições à misericórdia; esta permanece sempre um ato de gratuidade do Pai celeste, um amor incondicional e não merecido. Por isso, não podemos correr o risco de nos opor à plena liberdade do amor com que Deus entra na vida de cada pessoa.

A misericórdia é esta ação concreta do amor que, perdoando, transforma e muda a vida. É assim que se manifesta o seu mistério divino. Deus é misericordioso (cf. Ex 34, 6), a sua misericórdia é eterna (cf. Sal 136/135), de geração em geração abraça cada pessoa que confia n’Ele e transforma-a, dando-lhe a sua própria vida.

3.         Quanta alegria brotou no coração destas duas mulheres: a adúltera e a pecadora! O perdão fê-las sentirem-se, finalmente, livres e felizes como nunca antes. As lágrimas da vergonha e do sofrimento transformaram-se no sorriso de quem sabe que é amado. A misericórdia suscita alegria, porque o coração se abre à esperança duma vida nova. A alegria do perdão é indescritível, mas transparece em nós sempre que a experimentamos. Na sua origem, está o amor com que Deus vem ao nosso encontro, rompendo o círculo de egoísmo que nos envolve, para fazer também de nós instrumentos de misericórdia.

Como são significativas, também para nós, estas palavras antigas que guiavam os primeiros cristãos: «Reveste-te de alegria, que é sempre agradável a Deus e por Ele bem acolhida. Todo o homem alegre trabalha bem, pensa bem e despreza a tristeza. (...) Viverão em Deus todas as pessoas que afastam a tristeza e se revestem de toda a alegria».[2] Experimentar a misericórdia dá alegria; não no-la deixemos roubar pelas várias aflições e preocupações. Que ela permaneça bem enraizada no nosso coração e sempre nos faça olhar com serenidade a vida do dia-a-dia.

Numa cultura frequentemente dominada pela tecnologia, parecem multiplicar-se as formas de tristeza e solidão em que caem as pessoas, incluindo muitos jovens. Com efeito, o futuro parece estar refém da incerteza, que não permite ter estabilidade. É assim que muitas vezes surgem sentimentos de melancolia, tristeza e tédio, que podem, pouco a pouco, levar ao desespero. Há necessidade de testemunhas de esperança e de alegria verdadeira, para expulsar as quimeras que prometem uma felicidade fácil com paraísos artificiais. O vazio profundo de tanta gente pode ser preenchido pela esperança que trazemos no coração e pela alegria que brota dela. Há tanta necessidade de reconhecer a alegria que se revela no coração tocado pela misericórdia! Por isso guardemos como um tesouro estas palavras do Apóstolo: «Alegrai-vos sempre no Senhor!» (Flp 4, 4; cf. 1 Ts 5, 16).

4.         Celebramos um Ano intenso, durante o qual nos foi concedida, em abundância, a graça da misericórdia. Como um vento impetuoso e salutar, a bondade e a misericórdia do Senhor derramaram-se sobre o mundo inteiro. E perante este olhar amoroso de Deus, que se fixou de maneira tão prolongada sobre cada um de nós, não se pode ficar indiferente, porque muda a vida.

Antes de mais nada, sentimos necessidade de agradecer ao Senhor, dizendo-Lhe: «Vós abençoastes a vossa terra (…). Perdoastes as culpas do vosso povo» (Sal 85/84, 2.3). Foi mesmo assim: Deus esmagou as nossas culpas e lançou ao fundo do mar os nossos pecados (cf. Miq 7, 19); já não Se lembra deles, lançou-os para trás de Si (cf. Is 38, 17); como o Oriente está afastado do Ocidente, assim os nossos pecados estão longe d’Ele (cf. Sal 103/102, 12).

Neste Ano Santo, a Igreja pôde colocar-se à escuta e experimentou com grande intensidade a presença e proximidade do Pai, que, por obra do Espírito Santo, lhe tornou mais evidente o dom e o mandato de Jesus Cristo relativo ao perdão. Foi realmente uma nova visita do Senhor ao meio de nós. Sentimos o seu sopro vital efundir-se sobre a Igreja, enquanto, mais uma vez, as suas palavras indicavam a missão: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos» (Jo 20, 22-23).

5.         Agora, concluído este Jubileu, é tempo de olhar para diante e compreender como se pode continuar, com fidelidade, alegria e entusiasmo, a experimentar a riqueza da misericórdia divina. As nossas comunidades serão capazes de permanecer vivas e dinâmicas na obra da nova evangelização na medida em que a «conversão pastoral», que estamos chamados a viver,[3] for plasmada dia após dia pela força renovadora da misericórdia. Não limitemos a sua ação; não entristeçamos o Espírito que indica sempre novas sendas a percorrer para levar a todos o Evangelho da salvação.

Em primeiro lugar, somos chamados a celebrar a misericórdia. Quanta riqueza está presente na oração da Igreja, quando invoca a Deus como Pai misericordioso! Na liturgia, não só se evoca repetidamente a misericórdia, mas é realmente recebida e vivida. Desde o início até ao fim da Celebração Eucarística, a misericórdia reaparece várias vezes no diálogo entre a assembleia orante e o coração do Pai, que rejubila quando pode derramar o seu amor misericordioso. Logo na altura do pedido inicial de perdão com a invocação «Senhor, tende piedade de nós», somos tranquilizados: «Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna». É com esta confiança que a comunidade se reúne na presença do Senhor, especialmente no dia semanal que recorda a ressurreição. Muitas orações ditas «coletas» procuram recordar-nos o grande dom da misericórdia. No tempo da Quaresma, por exemplo, rezamos com estas palavras: «Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia».[4] Mais adiante, somos introduzidos na Oração Eucarística pelo Prefácio que proclama: «Na vossa infinita misericórdia, de tal modo amastes o mundo que nos enviastes Jesus Cristo, nosso Salvador, em tudo semelhante ao homem, menos no pecado».[5] Aliás a própria Oração IV é um hino à misericórdia de Deus: «Na vossa misericórdia, a todos socorrestes, para que todos aqueles que Vos procuram Vos encontrem».[6] «Tende misericórdia de nós, Senhor»:[7] é a súplica premente que o sacerdote faz na Oração Eucarística para implorar a participação na vida eterna. Depois do Pai-Nosso, o sacerdote prolonga a oração invocando a paz e a libertação do pecado, «ajudados pela vossa misericórdia» e, antes da saudação da paz que os participantes trocam entre si como expressão de fraternidade e amor mútuo à luz do perdão recebido, o celebrante reza de novo: «Não olheis aos nossos pecados, mas à fé da vossa Igreja».[8] Através destas palavras, pedimos com humilde confiança o dom da unidade e da paz para a Santa Mãe Igreja. Assim a celebração da misericórdia divina culmina no Sacrifício Eucarístico, memorial do mistério pascal de Cristo, do qual brota a salvação para todo o ser humano, a história e o mundo inteiro. Em suma, cada momento da Celebração Eucarística faz referimento à misericórdia de Deus.

Mas, em toda a vida sacramental, é-nos dada com abundância a misericórdia. Realmente é significativo que a Igreja tenha querido fazer explicitamente apelo à misericórdia na fórmula dos dois sacramentos chamados «de cura»: a Reconciliação e a Unção dos Enfermos. Assim reza a fórmula da absolvição: «Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e infundiu o Espírito para a remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz»;[9] e ao ungir a pessoa doente: «Por esta santa Unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo».[10] Deste modo, a referência à misericórdia na oração da Igreja, longe de ser apenas parenética, é altamente realizadora, ou seja, enquanto a invocamos com fé, é-nos concedida; enquanto a confessamos viva e real, efetivamente transforma-nos. Este é um conteúdo fundamental da nossa fé, que devemos conservar em toda a sua originalidade: ainda antes e acima da revelação do pecado, temos a revelação do amor com que Deus criou o mundo e os seres humanos. O amor é o primeiro ato com que Deus Se deu a conhecer e vem ao nosso encontro. Por isso mantenhamos o coração aberto à confiança de ser amados por Deus. O seu amor sempre nos precede, acompanha e permanece connosco, não obstante o nosso pecado.

6.         Neste contexto, assume significado particular também a escuta da Palavra de Deus. Cada domingo, a Palavra de Deus é proclamada na comunidade cristã, para que o Dia do Senhor seja iluminado pela luz que dimana do mistério pascal.[11] Na Celebração Eucarística, é como se assistíssemos a um verdadeiro diálogo entre Deus e o seu povo. Com efeito, na proclamação das Leituras bíblicas, repassa-se a história da nossa salvação através da obra incessante de misericórdia que é anunciada. Deus fala-nos ainda hoje como a amigos, «convive» connosco[12] oferecendo-nos a sua companhia e mostrando-nos a senda da vida. A sua Palavra faz-se intérprete dos nossos pedidos e preocupações e, simultaneamente, resposta fecunda para podermos experimentar concretamente a sua proximidade. Quão grande importância adquire a homilia, onde «a verdade anda de mãos dadas com a beleza e o bem»,[13] para fazer vibrar o coração dos crentes perante a grandeza da misericórdia! Recomendo vivamente a preparação da homilia e o cuidado na sua proclamação. Será tanto mais frutuosa quanto mais o sacerdote tiver experimentado em si mesmo a bondade misericordiosa do Senhor. Comunicar a certeza de que Deus nos ama não é um exercício de retórica, mas condição de credibilidade do próprio sacerdócio. Por conseguinte, viver a misericórdia é a via mestra para fazê-la tornar-se um verdadeiro anúncio de consolação e conversão na vida pastoral. A homilia, como também a catequese, precisam de ser sempre sustentadas por este coração pulsante da vida cristã.

7.         A Bíblia é a grande narração que relata as maravilhas da misericórdia de Deus. Nela, cada página está imbuída do amor do Pai, que, desde a criação, quis imprimir no universo os sinais de seu amor. O Espírito Santo, através das palavras dos profetas e dos escritos sapienciais, moldou a história de Israel no reconhecimento da ternura e proximidade de Deus, não obstante a infidelidade do povo. A vida de Jesus e a sua pregação marcam, de forma determinante, a história da comunidade cristã, que compreendeu a sua missão com base no mandato que Cristo lhe confiou de ser instrumento permanente da sua misericórdia e do seu perdão (cf. Jo 20, 23). Através da Sagrada Escritura, mantida viva pela fé da Igreja, o Senhor continua a falar à sua Esposa, indicando-lhe as sendas a percorrer para que o Evangelho da salvação chegue a todos. É meu vivo desejo que a Palavra de Deus seja cada vez mais celebrada, conhecida e difundida, para que se possa, através dela, compreender melhor o mistério de amor que dimana daquela fonte de misericórdia. Claramente no-lo recorda o Apóstolo: «Toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (2 Tm 3, 16).

Seria conveniente que cada comunidade pudesse, num domingo do Ano Litúrgico, renovar o compromisso em prol da difusão, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura: um domingo dedicado inteiramente à Palavra de Deus, para compreender a riqueza inesgotável que provém daquele diálogo constante de Deus com o seu povo. Não há de faltar a criatividade para enriquecer o momento com iniciativas que estimulem os crentes a ser instrumentos vivos de transmissão da Palavra. Entre tais iniciativas, conta-se certamente uma difusão mais ampla da lectio divina, para que, através da leitura orante do texto sagrado, a vida espiritual encontre apoio e crescimento. A lectio divina sobre os temas da misericórdia consentirá de verificar a grande fecundidade que deriva do texto sagrado, lido à luz de toda a tradição espiritual da Igreja, que leva necessariamente a gestos e obras concretas de caridade.[14]

8.         A celebração da misericórdia tem lugar, duma forma muito particular, no sacramento da Reconciliação. Este é o momento em que sentimos o abraço do Pai, que vem ao nosso encontro para nos restituir a graça de voltarmos a ser seus filhos. Nós somos pecadores e carregamos connosco o peso da contradição entre o que quereríamos fazer e aquilo que, ao invés, acabamos concretamente por fazer (cf. Rm 7, 14-21); mas a graça sempre nos precede e assume o rosto da misericórdia que se torna eficaz na reconciliação e no perdão. Deus faz-nos compreender o seu amor imenso precisamente à vista da nossa realidade de pecadores. A graça é mais forte, e supera qualquer possível resistência, porque o amor tudo vence (cf. 1 Cor 13, 7).

No sacramento do Perdão, Deus mostra o caminho da conversão a Ele e convida a experimentar de novo a sua proximidade. É um perdão que pode ser obtido, começando antes de mais nada a viver a caridade. Assim no-lo recorda o apóstolo Pedro, quando escreve que «o amor cobre a multidão dos pecados» (1 Ped 4, 8). Só Deus perdoa os pecados, mas também nos pede que estejamos prontos a perdoar aos outros, como Ele perdoa a nós: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido» (Mt 6, 12). Como é triste quando ficamos fechados em nós mesmos, incapazes de perdoar! Prevalecem o ressentimento, a ira, a vingança, tornando a vida infeliz e frustrando o jubiloso compromisso pela misericórdia.

9.         Uma experiência de graça que a Igreja viveu, com tanta eficácia, no Ano Jubilar foi, certamente, o serviço dos Missionários da Misericórdia. A sua ação pastoral pretendeu tornar evidente que Deus não põe qualquer barreira a quantos O procuram de coração arrependido, mas vai ao encontro de todos como um Pai. Recebi muitos testemunhos de alegria pelo renovado encontro com o Senhor no sacramento da Confissão. Não percamos a oportunidade de viver a fé, inclusive como experiência da reconciliação. «Reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20): é o convite que ainda hoje dirige o Apóstolo a cada crente para lhe fazer descobrir a força do amor que o torna uma «nova criação» (2 Cor 5, 17).

Quero expressar a minha gratidão a todos os Missionários da Misericórdia pelo valioso serviço oferecido para tornar eficaz a graça do perdão. Mas este ministério extraordinário não termina com o encerramento da Porta Santa. De facto desejo que permaneça ainda, até novas ordens, como sinal concreto de que a graça do Jubileu continua a ser viva e eficaz nas várias partes do mundo. Será responsabilidade do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização seguir, neste período, os Missionários da Misericórdia, como expressão direta da minha solicitude e proximidade e encontrar as formas mais coerentes para o exercício deste precioso ministério.

10.       Aos sacerdotes, renovo o convite para se prepararem com grande cuidado para o ministério da Confissão, que é uma verdadeira missão sacerdotal. Agradeço-vos vivamente pelo vosso serviço e peço-vos para serdes acolhedores com todos, testemunhas da ternura paterna não obstante a gravidade do pecado, solícitos em ajudar a refletir sobre o mal cometido, claros ao apresentar os princípios morais, disponíveis para acompanhar os fiéis no caminho penitencial respeitando com paciência o seu passo, clarividentes no discernimento de cada um dos casos, generosos na concessão do perdão de Deus. Como Jesus, perante a adúltera, optou por permanecer em silêncio para a salvar da condenação à morte, assim também o sacerdote no confessionário seja magnânimo de coração, ciente de que cada penitente lhe recorda a sua própria condição pessoal: pecador mas ministro da misericórdia.

11.       Gostaria que todos nós meditássemos as palavras do Apóstolo, escritas no final da sua vida, quando confessa a Timóteo ser o primeiro dos pecadores, mas «justamente por isso alcancei misericórdia» (1 Tm 1, 16). As suas palavras têm uma força que irrompe também em nós levando-nos a refletir sobre a nossa existência vendo em ação a misericórdia de Deus na mudança, conversão e transformação do nosso coração: «Dou graças Àquele que me conforta, Cristo Jesus Nosso Senhor, por me ter considerado digno de confiança, pondo-me ao seu serviço, a mim que antes fora blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei misericórdia» (1 Tm 1, 12-13).

Por isso lembremos, com paixão pastoral sempre renovada, as palavras do Apóstolo: «Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação» (2 Cor 5, 18). Nós, primeiro, fomos perdoados, tendo em vista este ministério; tornamo-nos testemunhas em primeira mão da universalidade do perdão. Não há lei nem preceito que possa impedir a Deus de reabraçar o filho que regressa a Ele reconhecendo que errou, mas decidido a começar de novo. Deter-se apenas na lei equivale a invalidar a fé e a misericórdia divina. Há um valor preparatório na lei (cf. Gal 3, 24), cujo fim é o amor (cf. 1 Tm 1, 5). Mas o cristão é chamado a viver a novidade do Evangelho, «a lei do Espírito que dá vida em Cristo Jesus» (Rm 8, 2). Mesmo nos casos mais complexos, onde se é tentado a fazer prevalecer uma justiça que deriva apenas das normas, deve-se crer na força que brota da graça divina.

Nós, confessores, temos experiência de muitas conversões que ocorrem diante dos nossos olhos. Sintamos, portanto, a responsabilidade de gestos e palavras que possam chegar ao fundo do coração do penitente, para que descubra a proximidade e a ternura do Pai que perdoa. Não invalidemos estes momentos com comportamentos que possam contradizer a experiência da misericórdia que se procura; mas, antes, ajudemos a iluminar o espaço da consciência pessoal com o amor infinito de Deus (cf. 1 Jo 3, 20).

O sacramento da Reconciliação precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida cristã; para isso requerem-se sacerdotes que ponham a sua vida ao serviço do «ministério da reconciliação» (2 Cor 5, 18), de tal modo que a ninguém sinceramente arrependido seja impedido de aceder ao amor do Pai que espera o seu regresso e, ao mesmo tempo, a todos seja oferecida a possibilidade de experimentar a força libertadora do perdão.

Uma ocasião propícia pode ser a celebração da iniciativa 24 horas para o Senhor nas proximidades do IV domingo da Quaresma, que goza já de amplo consenso nas dioceses e continua a ser um forte apelo pastoral para viver intensamente o sacramento da Confissão.

12.       Em virtude desta exigência, para que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar[15] fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário. Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente; mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. Portanto, cada sacerdote faça-se guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconciliação.

No Ano do Jubileu, aos fiéis que por variados motivos frequentam as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, tinha-lhes concedido receber válida e licitamente a absolvição sacramental dos seus pecados.[16] Para o bem pastoral destes fiéis e confiando na boa vontade dos seus sacerdotes para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunhão na Igreja Católica, estabeleço por minha própria decisão de estender esta faculdade para além do período jubilar, até novas disposições sobre o assunto, a fim de que a ninguém falte jamais o sinal sacramental da reconciliação através do perdão da Igreja.

13.       A misericórdia possui também o rosto da consolação. «Consolai, consolai o meu povo» (Is 40, 1): são as palavras sinceras que o profeta faz ouvir ainda hoje, para que possa chegar uma palavra de esperança a quantos estão no sofrimento e na aflição. Nunca deixemos que nos roubem a esperança que provém da fé no Senhor ressuscitado. É verdade que muitas vezes somos sujeitos a dura prova, mas não deve jamais esmorecer a certeza de que o Senhor nos ama. A sua misericórdia expressa-se também na proximidade, no carinho e no apoio que muitos irmãos e irmãs podem oferecer quando sobrevêm os dias da tristeza e da aflição. Enxugar as lágrimas é uma ação concreta que rompe o círculo de solidão onde muitas vezes se fica encerrado.

Todos precisamos de consolação, porque ninguém está imune do sofrimento, da tribulação e da incompreensão. Quanta dor pode causar uma palavra maldosa, fruto da inveja, do ciúme e da ira! Quanto sofrimento provoca a experiência da traição, da violência e do abandono! Quanta amargura perante a morte das pessoas queridas! E, todavia, Deus nunca está longe quando se vivem estes dramas. Uma palavra que anima, um abraço que te faz sentir compreendido, uma carícia que deixa perceber o amor, uma oração que permite ser mais forte... são todas expressões da proximidade de Deus através da consolação oferecida pelos irmãos.

Às vezes, poderá ser de grande ajuda também o silêncio; porque em certas ocasiões não há palavras para responder às perguntas de quem sofre. Mas, à falta da palavra, pode suprir a compaixão de quem está presente, próximo, ama e estende a mão. Não é verdade que o silêncio seja um ato de rendição; pelo contrário, é um momento de força e de amor. O próprio silêncio pertence à nossa linguagem de consolação, porque se transforma num gesto concreto de partilha e participação no sofrimento do irmão.

14.       Num momento particular como o nosso que, entre muitas crises, regista também a da família, é importante fazer chegar uma palavra de força consoladora às nossas famílias. O dom do matrimónio é uma grande vocação, que se há de viver, com a graça de Cristo, no amor generoso, fiel e paciente. A beleza da família permanece inalterada, apesar de tantas sombras e propostas alternativas: «a alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja».[17] A senda da vida que leva um homem e uma mulher a encontrarem-se, amarem-se e prometerem reciprocamente, diante de Deus, uma fidelidade para sempre, é muitas vezes interrompida pelo sofrimento, a traição e a solidão. A alegria pelo dom dos filhos não está imune das preocupações sentidas pelos pais com o seu crescimento e formação, com um futuro digno de ser vivido intensamente.

A graça do sacramento do Matrimónio não só fortalece a família, para que seja o lugar privilegiado onde se vive a misericórdia, mas também compromete a comunidade cristã e toda a atividade pastoral para pôr em realce o grande valor propositivo da família. Por isso, este Ano Jubilar não pode perder de vista a complexidade da realidade familiar atual. A experiência da misericórdia torna-nos capazes de encarar todas as dificuldades humanas com a atitude do amor de Deus, que não Se cansa de acolher e acompanhar.[18]

Não podemos esquecer que cada um traz consigo a riqueza e o peso da sua própria história, que nos distingue de qualquer outra pessoa. A nossa vida, com as suas alegrias e os seus sofrimentos, é algo único e irrepetível que se desenrola sob o olhar misericordioso de Deus. Isto requer, sobretudo por parte do sacerdote, um discernimento espiritual atento, profundo e clarividente, para que toda a pessoa sem exceção, em qualquer situação que viva, possa sentir-se concretamente acolhida por Deus, participar ativamente na vida da comunidade e estar inserida naquele Povo de Deus que incansavelmente caminha para a plenitude do reino de Deus, reino de justiça, de amor, de perdão e de misericórdia.

15.       Reveste-se de particular importância o momento da morte. A Igreja viveu sempre esta dramática passagem à luz da ressurreição de Jesus Cristo, que abriu a estrada para a certeza da vida futura. Temos aqui um grande desafio a abraçar, sobretudo na cultura contemporânea que, muitas vezes, tende a banalizar a morte até reduzi-la a simples ficção ou a ocultá-la. Ao contrário, a morte há de ser enfrentada e preparada como uma passagem que, embora dolorosa e inevitável, é cheia de sentido: o ato extremo de amor para com as pessoas que se deixam e para com Deus a cujo encontro se vai. Em todas as religiões, o momento da morte – como aliás o do nascimento – é acompanhado por uma presença religiosa. Nós vivemos a experiência das exéquias como uma oração cheia de esperança para a alma da pessoa falecida e para dar consolação àqueles que sofrem a separação da pessoa amada.

Estou convencido de que há necessidade, na pastoral animada por uma fé viva, de tornar palpável como os sinais litúrgicos e as nossas orações são expressão da misericórdia do Senhor. É Ele próprio que oferece palavras de esperança, porque nada nem ninguém poderá separar-nos jamais do seu amor (cf. Rm 8, 35.38-39). A partilha deste momento pelo sacerdote é um acompanhamento importante, porque lhe permite viver a proximidade à comunidade cristã no momento de fraqueza, solidão, incerteza e pranto.

16.       Termina o Jubileu e fecha-se a Porta Santa. Mas a porta da misericórdia do nosso coração permanece sempre aberta de par em par. Aprendemos que Deus Se inclina sobre nós (cf. Os 11, 4), para que também nós possamos imitá-Lo inclinando-nos sobre os irmãos. A saudade que muitos sentem de regressar à casa do Pai, que aguarda a sua chegada, é suscitada também por testemunhas sinceras e generosas da ternura divina. A Porta Santa, que cruzamos neste Ano Jubilar, introduziu-nos no caminho da caridade, que somos chamados a percorrer todos os dias com fidelidade e alegria. É a estrada da misericórdia que torna possível encontrar tantos irmãos e irmãs que estendem a mão para que alguém a possa agarrar a fim de caminharem juntos.

Querer estar perto de Cristo exige fazer-se próximo dos irmãos, porque nada é mais agradável ao Pai do que um sinal concreto de misericórdia. Por sua própria natureza, a misericórdia torna-se visível e palpável numa ação concreta e dinâmica. Uma vez que se experimentou a misericórdia em toda a sua verdade, nunca mais se volta atrás: cresce continuamente e transforma a vida. É, na verdade, uma nova criação que faz um coração novo, capaz de amar plenamente, e purifica os olhos para reconhecerem as necessidades mais ocultas. Como são verdadeiras as palavras com que a Igreja reza na Vigília Pascal, depois da leitura da narração da criação: «Senhor nosso Deus, que de modo admirável criastes o homem e de modo mais admirável o redimistes…»![19]

A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem. Este inflama-se e o primeiro cura-o: o coração de pedra fica transformado em coração de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de amar, não obstante o seu pecado. Nisto se nota que somos verdadeiramente uma «nova criação» (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui «misericordiado» e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia.

17.       Durante o Ano Santo, especialmente nas «sextas-feiras da misericórdia», pude verificar concretamente a grande quantidade de bem que existe no mundo. Com frequência, não é conhecido porque se realiza diariamente de forma discreta e silenciosa. Embora não façam notícia, existem muitos sinais concretos de bondade e ternura para com os mais humildes e indefesos, os que vivem mais sozinhos e abandonados. Há verdadeiros protagonistas da caridade, que não deixam faltar a solidariedade aos mais pobres e infelizes. Agradecemos ao Senhor por estes dons preciosos, que convidam a descobrir a alegria de aproximar-se da humanidade ferida. Com gratidão, penso nos inúmeros voluntários que diariamente dedicam o seu tempo a manifestar a presença e proximidade de Deus com a sua entrega. O seu serviço é uma genuína obra de misericórdia, que ajuda muitas pessoas a aproximar-se da Igreja.

18.       É a hora de dar espaço à imaginação a propósito da misericórdia para dar vida a muitas obras novas, fruto da graça. A Igreja precisa de narrar hoje aqueles «muitos outros sinais» que Jesus realizou e que «não estão escritos» (Jo 20, 30), de modo que sejam expressão eloquente da fecundidade do amor de Cristo e da comunidade que vive d’Ele. Já se passaram mais de dois mil anos, e todavia as obras de misericórdia continuam a tornar visível a bondade de Deus.

Ainda hoje populações inteiras padecem a fome e a sede, sendo grande a preocupação suscitada pelas imagens de crianças que não têm nada para se alimentar. Multidões de pessoas continuam a emigrar dum país para outro à procura de alimento, trabalho, casa e paz. A doença, nas suas várias formas, é um motivo permanente de aflição que requer ajuda, consolação e apoio. Os estabelecimentos prisionais são lugares onde muitas vezes, à pena restritiva da liberdade, se juntam transtornos por vezes graves devido às condições desumanas de vida. O analfabetismo ainda é muito difuso, impedindo aos meninos e meninas de se formarem, expondo-os a novas formas de escravidão. A cultura do individualismo exacerbado, sobretudo no Ocidente, leva a perder o sentido de solidariedade e responsabilidade para com os outros. O próprio Deus continua a ser hoje um desconhecido para muitos; isto constitui a maior pobreza e o maior obstáculo para o reconhecimento da dignidade inviolável da vida humana.

Em suma, as obras de misericórdia corporal e espiritual constituem até aos nossos dias a verificação da grande e positiva incidência da misericórdia como valor social. Com efeito, esta impele a arregaçar as mangas para restituir dignidade a milhões de pessoas que são nossos irmãos e irmãs, chamados connosco a construir uma «cidade fiável».[20]

19.       Muitos sinais concretos de misericórdia foram realizados durante este Ano Santo. Comunidades, famílias e indivíduos crentes redescobriram a alegria da partilha e a beleza da solidariedade. Mas não basta. O mundo continua a gerar novas formas de pobreza espiritual e material, que comprometem a dignidade das pessoas. É por isso que a Igreja deve permanecer vigilante e pronta para individuar novas obras de misericórdia e implementá-las com generosidade e entusiasmo.

Assim, ponhamos todo o esforço em dar formas concretas à caridade e, ao mesmo tempo, entender melhor as obras de misericórdia. Com efeito, esta possui um efeito inclusivo pelo que tende a difundir-se como uma nódoa de azeite e não conhece limites. E, neste sentido, somos chamados a dar um novo rosto às obras de misericórdia que conhecemos desde sempre. De facto a misericórdia extravasa; vai sempre mais além, é fecunda. É como o fermento que faz levedar a massa (cf. Mt 13, 33), e como o grão de mostarda que se transforma numa árvore (cf. Lc 13, 19).

A título de exemplo, basta pensar na obra de misericórdia corporal vestir quem está nu (cf. Mt 25, 36.38.43.44). A mesma nos reconduz aos primórdios, ao jardim do Éden, quando Adão e Eva descobriram que estavam nus e, ouvindo aproximar-Se o Senhor, tiveram vergonha e esconderam-se (cf. Gn 3, 7-8). Sabemos que o Senhor castigou-os; no entanto, Ele «fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles e vestiu-os» (Gn 3, 21). A vergonha é superada e a dignidade restituída.

Fixemos o olhar também em Jesus no Gólgota. Na cruz, o Filho de Deus está nu; a sua túnica foi sorteada e levada pelos soldados (cf. Jo 19, 23-24); Ele não tem mais nada. Na cruz, manifesta-se ao máximo a partilha de Jesus com as pessoas que perderam a dignidade, por terem sido privadas do necessário. Assim como a Igreja é chamada a ser a «túnica de Cristo»[21] para revestir o seu Senhor, assim também ela se comprometeu a tornar-se solidária com os nus da terra a fim de recuperarem a dignidade de que foram despojados. Assim as palavras de Jesus – «estava nu e destes-me que vestir» (Mt 25, 36) – obrigam-nos a não desviar o olhar das novas formas de pobreza e marginalização que impedem às pessoas de viverem com dignidade.

Não ter trabalho nem receber um salário justo, não poder ter uma casa ou uma terra onde habitar, ser discriminados pela fé, a raça, a posição social... estas e muitas outras são condições que atentam contra a dignidade da pessoa; frente a elas, a ação misericordiosa dos cristãos responde, antes de mais nada, com a vigilância e a solidariedade. Hoje são tantas as situações em que podemos restituir dignidade às pessoas, consentindo-lhes uma vida humana. Basta pensar em tantos meninos e meninas que sofrem violências de vários tipos, que lhes roubam a alegria da vida. Os seus rostos tristes e desorientados permanecem impressos na minha mente; pedem a nossa ajuda para serem libertados da escravidão do mundo contemporâneo. Estas crianças são os jovens de amanhã; como estamos a prepará-las para viverem com dignidade e responsabilidade? Com que esperança podem elas enfrentar o seu presente e o seu futuro?

O caráter social da misericórdia exige que não permaneçamos inertes mas afugentemos a indiferença e a hipocrisia para que os planos e os projetos não fiquem letra morta. Que o Espírito Santo nos ajude a estar sempre prontos a prestar de forma efetiva e desinteressada a nossa contribuição, para que a justiça e uma vida digna não permaneçam meras palavras de circunstância, mas sejam o compromisso concreto de quem pretende testemunhar a presença do Reino de Deus.

20.       Somos chamados a fazer crescer uma cultura de misericórdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. As obras de misericórdia são «artesanais»: nenhuma delas é cópia da outra; as nossas mãos podem moldá-las de mil modos e, embora seja único o Deus que as inspira e única a «matéria» de que são feitas, ou seja, a própria misericórdia, cada uma adquire uma forma distinta.

Com efeito, as obras de misericórdia, tocam toda a vida duma pessoa. Por isso, temos possibilidade de criar uma verdadeira revolução cultural precisamente a partir da simplicidade de gestos que podem alcançar o corpo e o espírito, isto é, a vida das pessoas. É um compromisso que a comunidade cristã pode assumir, na certeza de que a Palavra do Senhor não cessa de a chamar para sair da indiferença e do individualismo em que somos tentados a fechar-nos levando uma existência cómoda e sem problemas. «Os pobres, sempre os tendes convosco» (Jo 12, 8): disse Jesus aos seus discípulos. Não há desculpa que possa justificar a incúria, quando sabemos que Ele Se identificou com cada um deles.
A cultura da misericórdia forma-se na oração assídua, na abertura dócil à ação do Espírito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres. É um convite premente para não se equivocar onde é determinante comprometer-se. A tentação de se limitar a fazer a «teoria da misericórdia» é superada na medida em que esta se faz vida diária de participação e partilha. Aliás, nunca devemos esquecer as palavras com que o apóstolo Paulo – ao contar o encontro depois da sua conversão com Pedro, Tiago e João – põe em realce um aspeto essencial da sua missão e de toda a vida cristã: «Só nos disseram que nos devíamos lembrar dos pobres – o que procurei fazer com o maior empenho» (Gal 2, 10). Não podemos esquecer-nos dos pobres: trata-se dum convite hoje mais atual do que nunca, que se impõe pela sua evidência evangélica.

21.       Que a experiência do Jubileu imprima em nós estas palavras do apóstolo Pedro: outrora «não tínheis alcançado misericórdia e agora alcançastes misericórdia» (1 Ped 2, 10). Não guardemos ciosamente só para nós tudo o que recebemos; saibamos partilhá-lo com os irmãos atribulados, para que sejam sustentados pela força da misericórdia do Pai. As nossas comunidades abram-se para alcançar a todas as pessoas que vivem no seu território, para que chegue a todas a carícia de Deus através do testemunho dos crentes.

Este é o tempo da misericórdia. Cada dia da nossa caminhada é marcado pela presença de Deus, que guia os nossos passos com a força da graça que o Espírito infunde no coração para o plasmar e torná-lo capaz de amar. É o tempo da misericórdia para todos e cada um, para que ninguém possa pensar que é alheio à proximidade de Deus e à força da sua ternura. É o tempo da misericórdia para que quantos se sentem fracos e indefesos, afastados e sozinhos possam individuar a presença de irmãos e irmãs que os sustentam nas suas necessidades. É o tempo da misericórdia para que os pobres sintam pousado sobre si o olhar respeitoso mas atento daqueles que, vencida a indiferença, descobrem o essencial da vida. É o tempo da misericórdia para que cada pecador não se canse de pedir perdão e sentir a mão do Pai, que sempre acolhe e abraça.

À luz do «Jubileu das Pessoas Excluídas Socialmente», celebrado quando já se iam fechando as Portas da Misericórdia em todas as catedrais e santuários do mundo, intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres. Será a mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). Será um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21). Além disso este Dia constituirá uma forma genuína de nova evangelização (cf. Mt 11, 5), procurando renovar o rosto da Igreja na sua perene ação de conversão pastoral para ser testemunha da misericórdia.

22.       Sobre nós permanecem pousados os olhos misericordiosos da Santa Mãe de Deus. Ela é a primeira que abre a procissão e nos acompanha no testemunho do amor. A Mãe da Misericórdia reúne a todos sob a proteção do seu manto, como A quis frequentemente representar a arte. Confiemos na sua ajuda materna e sigamos a indicação perene que nos dá de olhar para Jesus, rosto radiante da misericórdia de Deus.

Dado em Roma, junto de São Pedro, em 20 de novembro – Solenidade de Cristo Rei – do Ano do Senhor de 2016, quarto do meu pontificado.

FRANCISCO

[1] In Johannis 33, 5.
[2] HERMAS, O Pastor, 42, 1-4.
[3] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 27.
[4] Missal Romano, III Domingo da Quaresma.
[5] Ibid., Prefácio VII dos Domingos do Tempo Comum.
[6] Ibid., Oração Eucarística IV.
[7] Ibid., Oração Eucarística II.
[8] Ibid., Ritos da Comunhão.
[9] Ritual da Penitência, n. 46.
[10] Ritual da Unção dos Enfermos, n. 76.
[11] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Const. Sacrosanctum Concilium, 106.
[12] Idem, Const. dogm. Dei Verbum, 2.
[13] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 142.
[14] Cf. Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Verbum Domini, 86-87.
[15] Cf. Carta pela qual se concede a indulgência por ocasião do Jubileu da Misericórdia, 1 de setembro de 2015.
[16] Cf. ibidem.
[17] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia, 1.
[18] Cf. ibid., 291-300.
[19] Missal Romano, Vigília Pascal, Oração depois da Primeira Leitura.
[20] Bento XVI, Carta enc. Lumen fidei, 50.
[21] Cipriano, A unidade da Igreja Católica, 7.